Um anjo azul - Dia Mundial da Conscientização do Autismo

abril 02, 2016

Todo ano tenho o prazer enorme em dividir lindas histórias de mães solteiras, mães de crianças autistas e hoje, dia 02 de abril de 2016, Dia Mundial da Conscientização do Autismo, quem conta sua história é de uma seguidora de longa da data, a Laryssa L. Vieira, de 27 anos, mãe solteira de um anjo azul, Theo, de 02 anos e 02 meses.

Impossível chegar ao fim dessa história sem derramar uma lágrima. Espero que com esse depoimento muitas mães se identifiquem e não se sintam sozinhas.

Engravidei do Theo por acaso, no último ano da minha faculdade de direito, após 05 anos de namoro. Na época que engravidei estávamos terminados e resolvemos reatar e nos casar.  No entanto, em meio a tantas coisas novas, nosso namoro que sempre foi tumultuado, tornou-se ainda pior, e acabamos separando ainda no meu 3° mês de gestação.

Durante toda minha gravidez, minha família esteve ao meu lado me apoiando sempre, e o pai do Theo até então não apareceu mais, e só voltou quando faltava por volta de um mês para Theo nascer. Quando ele voltou dizendo estar arrependido, combinamos que seriamos amigos, passando por cima de tudo que ate então havia acontecido e ele me ajudaria a criar o Theo. Mas de fato não foi o que aconteceu, ele sempre foi ausente, e não nos ajudava.
Quando Theo completou 01 ano de vida, resolvi que voltaria a trabalhar e estudar para prova da Ordem, nessa época Theo era extremamente agarrado comigo e não aceitava nem mesmo meus pais. 

As coisas eram muito complicadas, vivia um conflito diário com pai dele e a família, e não tinha nada que fizesse Theo dormir a noite,  para completar ele não aceitava ficar com meus pais e com mais ninguém.

Foi então, que juntamente com meus pais resolvemos relatar à pediatra dele o que estava acontecendo, pois além disso, Theo demonstrava alguns atrasos no desenvolvimento, ele não segurava mamadeira, não olhava quando era chamado, brincava somente com cabides e chinelos, e parecia sempre “preguiçoso”, estava sempre deitado no chão, ou encostado em algum móvel para conseguir manter-se assentado e não apresentava sinais de que iria andar tão cedo.

Com isso, nossa querida e sábia pediatra, já desconfiada que houvesse algo de errado, nos orientou para que colocássemos Theo na escolinha, assim saberíamos até que ponto todos esses sintomas eram falta de estímulos ou se realmente havia algo de errado.

Foi então que Deus iluminou meu caminho na minha primeira escolha, a da escolinha do Theo. Após algumas procuras e nenhuma satisfação, encontramos um excelente berçário perto da minha casa.

A adaptação foi péssima. Foram meses de muito choro todos os dias. Após um mês de escola ele ainda em difícil adaptação, a escolinha fez uma festinha de carnaval e as crianças deveriam ir fantasiadas. Quando fui buscar o Theo a diretora gentilmente me chamou para conversar dizendo que precisávamos fazer uma reunião, e quando questionei sobre o aproveitamento do Theo na festinha ela disse que ele havia chorado praticamente o tempo todo e marcou a reunião para segunda feira seguinte.

Fiquei arrasada, sabia que as coisas não estavam indo bem, durante a semana eu tinha visto pelas imagens da câmera as quais temos acesso pelo telefone, que o Theo estava ficando isolado na sala de aula e não aceitava muito bem que as professoras tocassem nele.

Instintivamente comecei a pesquisar sobre autismo na internet, e tudo se encaixava com os sintomas que ele vinha apresentando.

Na reunião da escola, a professora gentilmente me alertou sobre outros sintomas que ele apresentava e nos deu um relatório nos orientando para que levássemos a pediatra.

Quando a pediatra leu relatório ela nos encaminhou de imediato a uma neuropediatra e um psiquiatra renomado de Belo Horizonte, e pela segunda vez Deus iluminou nossos caminhos, o diagnostico foi rápido e preciso, com 01 ano e quase 3 meses Theo foi diagnosticado : “autista”.

Passei um final de semana chorando, tempo suficiente para eu catar os cacos e refazer os nossos planos, foi ai que minha vida começou outra vez uma nova fase. Nesse dia nascia um outro Theo, e junto dele todas as outras explicações para a falta de olhar, para resistência com os meus pais, para falta de sono, para a ausência de palminhas e gracinhas típicas de crianças da idade dele.

Theo já andava (pulando a fase de engatinhar), mas sempre caindo e trombando nas coisas, iniciamos as terapias e Deus nos iluminou em nossas escolhas por uma terceira vez, nas escolhas de nossos terapeutas.

Hoje com 02 anos e 2 meses, praticamente 1 anos após diagnostico, Theo faz acompanhamento 2 vezes na semana com uma excelente terapeuta ocupacional, duas vezes na semana com uma fonoaudióloga que ele adora, e saiu da fisioterapia pois alcançamos o esperado no final do ano passado. Ele ainda faz natação 2 vezes na semana, e tem a escolinha, que ele ama e só tem mostrado progressos.

A cada 15 dias fazemos treinamento comportamental de pais (no nosso caso eu e meus pais), com uma psicóloga. Decidi juntamente com meus pais (anjos em minha vida) que a principio não irei trabalhar, até que Theo se sinta seguro para ir aos tratamentos sem minha presença, e com isso meus pais são as pessoas que verdadeiramente arcam com todos os gastos do Theo e eu só tenho a agradecer não só a Deus, mas também a eles por poderem nos ajudar.

O pai do Theo após o diagnostico praticamente desapareceu, vez ou outra aparece, mas sem muitas interferências na vida do Theo, sejam elas emocionais ou financeiras.

Theo é uma criança extremamente feliz, e carinhosa. Toma remédio para dormir e está começando a arriscar algumas palavrinhas. Além disso, hoje Theo adora brincar de carrinho, colorir, pintar, nadar, adora histórinhas e interage bem melhor com os coleguinhas da escola e também com meus pais.

O nosso dia dia é bem puxado, temos muitas atividades, e na maioria das vezes estamos tentando estimula-lo, isso me deixa diversas vezes frustrada, outras tantas, me sinto incapaz, acho que estou estimulando pouco, e acabo esquecendo que ele é uma criança como outra qualquer.

Subir na cadeira e na mesa faz parte da infância e não do autismo.

Sinto que preciso cantar pintinho amarelinho, atirei o pau no gato, ensinar quantos aninhos ele tem, e não somente ficar repetindo: "não suba aí"; "olha pra mim"; "aponta e me mostra o que você quer"; "não corra"; "pare de rodar"; "não assista tv deitado no chão"; "não abra as gavetas"; "não jogue isso no vaso sanitário", "é sujo"; "não vire a caixa de brinquedos no chão acabei de catar"; "fique sentado para fazer as atividades"; "vamos, segure a colher"; "não coma isso"; "estou falando com você", essa dita mais de 100 vezes; "não grita"; "não morda a cadeira, o sofá"; "olha a quina da mesa, cuidado! Você vai cair!"

E lá se foi mais um dia...

Sinto que o dia é curto demais para fazer tantas coisas, sinto falta de um diálogo com meu filho!

As dificuldades diárias, não estão somente nas coisas erradas e pirraças comuns entre as crianças. Estão na compreensão ou na falta dela, na dificuldade de aceitar o “não”, nas dificuldades de compreensão dos comandos essenciais.

É você falar 1000 vezes e a pessoa te ignorar 1001 vezes, é a repetição exaustiva, a falta de diálogo, a independência dele e a dependência de mim.

É uma batalha interminável: Mãe x autismo.

E nesse dia 02 de Abril, um dia tão importante para conscientização do autismo, quis dividir com vocês um pouco da nossa história, da nossa rotina, não somente para dividir com mães que passam por isso, mas também para alertar outras mães e para conscientizar as pessoas, que nem sempre uma criança se joga no chão no meio da rua está fazendo pirraça.

Neste dia de hoje gostaria de me dizer solidária a outras mães que sozinhas ou não passam por isso todos os dias, e dizer que eu tenho esperança em um futuro para meu filho, que elas também tenham em seus filhos, e que o estimulo, a fé, perseverança, afeto e amor são fundamentais.

O nascimento do Theo foi a coisa mais importante que já me aconteceu, eu amo meu filho mais que tudo nessa vida, e dedico minha vida integralmente a ele, e irei fazer isso até que ele se sinta seguro para caminhar com as próprias pernas.

Meu amor por ele é incondicional, e juntos vamos vencer todas as barreiras.

Gostaria de aproveitar para agradecer a Pam a pelo convite e oportunidade de estar dividindo com vocês a nossa história, e finalizar com um poema que escrevi para meu filho, com todo meu amor.

Anjo Azul

Nasci bem bonitinho, um bebê engraçadinho
Fui crescendo e mamãe foi percebendo...
Mas que menino teimoso? Talvez seja genioso...

Nada de me olhar e nem mesmo os outros faz questão de agradar...
Mamãe vivia se perguntando: será que esse danado é assim tão desaforado?
Ou existe algo de errado?
Não gosta de dormir, mas vive a sorrir...
Não aceita qualquer carinho, mas adora o meu colinho.
Brincar ele não quer não...
Mas adora deitar-se ao chão
Mas que bicho te mordeu?
Você precisa falar pelo menos “eu”
Parece estar sempre irritado e nada é de seu agrado.
Afinal o que há de errado?

Com o tempo mamãe compreendeu o que foi que sucedeu.
Que assim como eu cada um tem seu jeitinho e eu só preciso de carinho.

Sou bem diferente de você...
Sou gordinho e você baixinho
Sou branquinho e você moreninho...
Meu cabelo e lisinho e o seu aneladinho...
Eu sou autista e você um artista.

Mamãe muito orgulhosa diz que quando eu crescer vou ser o quiser ser...
E que se eu quisesse poderia ser até mesmo como Messi.
Mas que eu jamais posso esquecer que ser diferente é normal...
Não me leve a mal, mas mamãe sabe das coisas...
Preconceito não é legal.
E que amar ao próximo é sempre o ideal.

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